quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Rio de Janeiro, de novo. O deslizamento agora é do crime organizado.

Nas últimas duas semanas assistimos ao enfrentamento, nos morros cariocas, entre o Estado Oficial e o Estado Paralelo. Claro está que o pano de fundo é a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2018. O Estado Oficial já está fazendo a “limpa” na casa para dar boa impressão internacional. 
Mas parece também que finalmente se tocou que o poder paralelo sobrevive na ausência do Estado. 
Produto do capitalismo por excelência, o Estado Moderno é um mal necessário, pois a sociedade humana ainda não aprendeu a se autogerir, de forma que na ausência do Estado impera a barbárie. 
Durante duas ou três décadas esta ausência do Estado permitiu que o espaço produzido nas favelas brasileiras fosse sendo comandado pelos traficantes de armas e drogas. Estes iam construindo a infraestrutura de serviços que era papel do Estado produzir. Enquanto isso a classe política, sempre mais ocupada com ganhos pessoais, abandonava a população carente e ela que se virasse com as infraestruturas urbanas. Esta população pobre então acolheu  e passou a proteger quem lhes dava a  mínima condição de sobrevivência no meio urbano: o crime organizado. 
Mas o que mudou, além dos eventos que vamos sediar em breve? Como todo poder que se cristaliza, o crime organizado em dado momento passou a agir com crueldade com seus “súditos”. Vimos assistindo a escalada de violência gratuita com pessoas que não aceitavam os comandos do poder paralelo. A população que por sobrevivência apoiava as facções criminosas começou a questionar-lhes o poder  crescente e cruel.
Paralelamente - no bom sentido, não o do poder paralelo – foi mudando o caráter da Polícia Militar. Criação da ditadura militar, durante mais de duas décadas teve um caráter opressor, ostensivo e repressivo, com relação ao povo em sí. Os PM’s recebiam treinamento militar, incluindo o famoso “teste de sobrevivência” bem conhecido das Forças Armadas. Lembram da música “Chame o Ladrão” do Chico Buarque? A população tinha mais medo da polícia que dos ladrões! O verdadeiro papel da Polícia é servir e ser aliada da sociedade, garantindo a segurança pública, e não o contrário. A democracia avança a passos lentos, mas um dos ganhos destes vinte anos de democracia, e que podemos observar na ação conjunta da PM mais Forças Armadas no Rio, é que este caráter opressivo mudou! As UPP (Unidades de Polícia Pacificadora) mostraram à população dos morros cariocas que a PM estava mudando. Ao mesmo tempo o crime organizado ampliava a frequência da crueldade.Por isso a população em um dado momento passou a apoiar a intervenção do Estado, quando antes apoiava os criminosos, que eram os produtores da infraestrutura urbana necessária. 
O que todos esperamos é que uma vez feita a limpa, o Estado não fique mais ausente e assuma seu papel com a população menos favorecida. No horizonte, os eventos esportivos internacionais obrigaram o Estado a agir, e a Prefeitura carioca já elabora os projetos de “urbanização” dos locais reconquistados. Mas se ficar apenas nisto o crime organizado voltará a ter seu “caldo de cultura”, e o que ora se conquista pode se perder novamente. Espero que a classe política tenha acordado finalmente e passe a agir como representante verdadeira da população. O Estado tem que servir a sociedade como um todo e não apenas aqueles que usufruem dos lucros que o sistema produz.
Observação: O espaço produzido da Mansão do Pezão é um prato cheio para a psicologia comportamental. Reproduziu no morro uma moradia de alto luxo da Zona Sul, com o piso imitando o calçadão de Copacabana. Ou seja, a consciência de nunca poder ter nada na Zona Sul do Rio o levou a reproduzir em seu espaço de representações algo que o lembrasse dos seus sonhos. Muito provavelmente foi o que o levou ao crime organizado, ao perceber que o trabalho como o Estado permite jamais lhe traria benefício algum!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O ESPAÇO INSTITUCIONAL
Embora virtual, pois media a relação Sociedade/Estado, existindo e se realizando a partir da aceitação social de um poder centralizado, o espaço institucional torna-se material nos prédios onde é exercido esse poder e naqueles que abrigam os serviços públicos. A desigualdade de importância dada pelos Três Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário - aos prédios onde estes são exercidos em comparação aos prédios que abrigam serviços públicos é manifesta concretamente no espaço produzido, dentro e fora das cidades. O próprio território brasileiro expressa em sua organização o descaso com o público. Brasília foi exemplo de modernidade espacial, bem como a forma como estruturou e logicizou o espaço nacional.
Fazendo tal análise, “caiu a ficha”.
Quem não utiliza o serviço público, principalmente saúde, educação, transporte e segurança, não tem interesse em melhorar esses serviços essenciais, acabando por privilegiar o privado e não o público. Alguns bem intencionados também não conseguem planejar os serviços públicos a contento, pois não fazendo uso constante destes, desconhecem a sua realidade concreta. Visitinhas de vez em quando, principalmente em ano eleitoral, não ensinam o que acontece no dia a dia. Apenas quem faz uso constante dos serviços públicos pode entende-los, pensar em soluções e destinar as verbas que lhe são de direito.
É isso: quem exerce o cargo público está distante da realidade do serviço público por que não o utiliza. Por isso nos programas eleitorais sobressai a mesmice e o ridículo.
Esta é a discussão mais importante hoje e não os programas e plataformas de governo expostos na feira livre da próxima eleição. Todos falam em investir no público: “aí freguês, compra o meu!”. Mas uma vez no poder, o interesse é a qualidade dos serviços privados, que é o que efetivamente a maioria dos políticos utiliza. Este fato é a expressão maior da distancia entre a classe política que temos, com todos seus interesses e prioridades, e o resto da sociedade, que sofre os serviços públicos.
Não estou propondo uma lei obrigando o ocupante de cargo público a utilizar o serviço público, o que seria muito difícil fiscalizar. Mas temos que considerar como obrigação ética o uso do serviço público por aqueles que exercem o poder no país, já que eles são seus administradores, responsáveis pelo seu bom funcionamento. Afinal fazem mil discursos sobre como melhoraram a qualidade do serviço público, mas não os utilizam, sendo assim “analfabetos da realidade social”!
Decidi assim nesta eleição dar meu voto para candidatos que utilizam sempre e somente os serviços públicos. Claro, ainda não encontrei nenhum!
Antes que me perguntem, sou usuário e sofro os serviços públicos. Não, não sou candidato, pois não sou político profissional. Em quem eu voto? Sendo coerente com minha análise e o “cair da ficha”, se não achar ninguém em quem votar, anulo. Para mim quem desconhece a realidade do serviço público, nada fará por ele e não merece meu voto. Ponto.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A Produção do Espaço Florestal

“Numa floresta desconhecida para a ciência branca, o Kayapó anda pela floresta como se estivesse escolhendo entre as gôndolas de um fantástico armazém ou shopping Center o produto de sua preferência. Diferença, porém, é que ele criou aquele empório natural. Os modernos arqueólogos sabem que para pesquisar antigas civilizações na Amazônia devem procurar as regiões onde existem muitas essências frutíferas ou alimentos, sinal inconfundível da modelagem e enriquecimento da paisagem pela tecnologia silvícola.”
William Leslie Overal, PhD em Zoologia e Entomologia pela universidade de Kansas, viveu e aprendeu com os índios Kayapós durante duas décadas
A Produção do Espaço Florestal
Já há algum tempo a biologia vem descobrindo que a biodiversidade das florestas tropicais tem grande contribuição das populações humanas “primitivas” que as habitam. Estas realizam sua sobrevivência selecionando determinadas espécies animais e vegetais e abrindo clareiras na mata para formar aldeias e roças. Mas não ficam ali para sempre. Deslocam-se de tempos em tempos, permitindo a regeneração da mata na clareira, o que acelera seus processos biológicos.
O texto de Overal acima é bastante claro sobre o “fazer floresta” dos Kayapós.
O fato da “modelagem e enriquecimento da paisagem”, ora rica em frutos e alimentos, servir de base para a busca de antigas civilizações, deixa claro que há modos-de-produção que conseguem produzir o seu espaço em equilíbrio com a natureza, coisa que temos de reaprender.

quinta-feira, 8 de abril de 2010



Sobre o Rio de Janeiro.
"Moro num país tropical, abençoado por Deus..."
É, aqui não tem terremoto, não tem vulcão... Mas também não tem política habitacional.
O acelerado processo de urbanização, conseqüência do enorme êxodo rural dos últimos 50 anos, associado a um volume absurdo de chuvas, produz o espaço caótico em que o Rio, literalmente, mergulha.
No Brasil nunca houve uma real e séria reforma agrária, o que tornaria a migração rural-urbana mais equilibrada e o planejamento das cidades mais racionalizado. Também nunca houve uma política habitacional séria de nenhuma das esferas de poder, federal, estadual ou municipal. 
Soma-se a isso nossa histórica e péssima distribuição de renda (uma das piores do mundo) e temos este espaço desigual e combinado do meio urbano. 
Espaço desigual pois reflete a péssima distribuição de renda. Combinado, pois na mesma urbe convivem bairros ricos e pobres derivados ambos da própria lógica do capital.
Históricamente os migrantes chegam e não encontram uma infra-estrutura habitacional adequada e, sem condições de adquirir os terrenos em áreas livres de riscos, mais valorizadas e loteadas pelo capital privado, são naturalmente empurrados para as várzeas de rios, em São Paulo, ou para os morros, no Rio e Niterói. Daí toda vez que ocorrem chuvas intensas, calamidade pública.
Pois é, aqui não tem terremoto, mas já morreram mais pessoas que no terremoto do Chile no começo do ano, pondo a nú a ausência do Estado, que sempre se desobrigou do investimento em infra-estruturas simples e adequadas. 
Estado este que utiliza o dinheiro público em grandes obras, que como sabemos, permitem grandes desvios...
A população, esta sofre e reza...

sábado, 20 de março de 2010

Entender a produção do espaço na favela acima, passa pelo entendimento da própria cultura mexicana, fortemente influenciada pelas civilizações pré-colombianas que aí habitavam milenarmente. Embora sejam sub-moradias, o colorido das casas é um produto da cultura remanescente de tais civilizações, que produziam seus artefatos usando a mesma gama de cores vivas que se vê na foto. Agora pense no espaço que te cerca. Será ele tão rico de referências culturais?

sábado, 6 de março de 2010

Pensar a produção do espaço significa que não há espaço para a geografia física?
Claro que não. Ela é fundamental, pois se não conhecemos a natureza e a gama de aspectos físicos (vegetação, clima, hidrografia, relevo, solos) que compõe uma dada estrutura espacial natural, vamos produzir um espaço em contradição com essa estrutura, levando a degradação da natureza. Ora, é isso mesmo que ocorre na superfície terrestre. Por absoluta falta de conhecimento desses aspectos, quando determinado processo produtivo se instala, o espaço assim humanizado pouco respeita as condições naturais.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A princípio parece difícil entender a produção do espaço.
Comece pela sua realidade. O seu entorno. Sua casa, o seu bairro.
Observe como é o relevo. Imagine como ele era e as modificações que sofreu com a ocupação das pessoas.
Perceba que esse espaço humanizado tem uma dinâmica, e que em seu bairro ou em sua casa sempre tem alguém com mais influencia no espaço que se produz.
Agora é só imaginar como era esse espaço quando natural, como poderia ter sido e o que fazer para chegar nesse ideal.
Com esse entendimento, você pode pensar formas de melhorar ou modificar o espaço em que vive.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Este blog fala de Geografia.
A minha Geografia não é acadêmica.
Porém a minha Geografia é acadêmica, por que é dialética.
Busca pensar o espaço de forma dialética.
É Geografia Crítica, pois busca entender o espaço como produção coletiva, social.
Procura entender o processo de produção do espaço, fornecendo armas para o cidadão comum compreender, interferir e modificar o espaço em que vive.
Ser cidadão, no mais amplo sentido social, não é apenas conhecer seus direitos e deveres, mas também compreender, questionar e influenciar o processo de produção do espaço em que habita.
Buscarei assim, sempre tratar de temas relevantes que auxiliem o entendimento do espaço produzido.